
Mais de duas décadas após a construção da Usina Hidrelétrica de Itapebi, no Rio Jequitinhonha, moradores de Salto da Divisa ainda convivem com as consequências sociais, ambientais e econômicas provocadas pelo empreendimento. As denúncias e relatos da população foram apresentados durante visita técnica e audiência pública realizadas pela Comissão de Participação Popular da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), a pedido do deputado Doutor Jean Freire (PT).
A agenda aconteceu na segunda-feira, 2 de março, e reuniu moradores, lideranças locais, representantes do poder público e movimentos sociais para discutir os impactos da represa na vida da comunidade.
Antes da audiência, a comitiva realizou uma visita técnica em áreas afetadas pela barragem. No local, moradores relataram mudanças profundas no modo de vida da população após o represamento do Rio Jequitinhonha.
Modos de vida interrompidos
Entre os relatos está o da lavadeira Elisabete Tavares, que começou a trabalhar ainda adolescente às margens do rio. Hoje, aos 69 anos, ela integra um grupo com mais de 80 lavadeiras que lutam por reconhecimento e reparação pelos impactos causados pela hidrelétrica.
Durante a visita, as lavadeiras relataram que a inundação da área alterou completamente a dinâmica do trabalho tradicional exercido por gerações. A atividade, que dependia diretamente da beira do rio para lavar, quarar e secar as roupas, tornou-se inviável após a formação da represa.
Segundo moradores, o represamento também afetou pescadores artesanais e trabalhadores que atuavam na extração de pedra e areia no leito do rio.
Estruturas prometidas não funcionam
Como forma de compensação pelos impactos, algumas estruturas foram instaladas pela empresa responsável pelo empreendimento, a Neoenergia. Uma delas foi uma lavanderia construída às margens da represa para atender as lavadeiras da cidade.
No entanto, o espaço nunca chegou a funcionar adequadamente. Com apenas três pias para atender dezenas de trabalhadoras e sem condições para secagem das roupas, o local foi abandonado.
Situação semelhante ocorreu com pescadores da região, que receberam um espaço para armazenamento de equipamentos. Com a contaminação da represa e a proliferação de plantas aquáticas, porém, a navegação e a pesca se tornaram cada vez mais difíceis.
Casas afetadas e danos estruturais
Moradores também denunciaram danos estruturais em casas localizadas próximas à área da represa. Segundo relatos apresentados na audiência pública, explosões durante as obras e o trânsito constante de caminhões pesados provocaram rachaduras e comprometimento de construções no bairro Barro Preto.
Além disso, a elevação do lençol freático após a formação da represa teria contribuído para problemas de estabilidade em diversas residências.
Lideranças locais afirmam que centenas de moradias podem ter sido afetadas.
Esgoto sem tratamento
Outro problema apontado durante a audiência foi a situação da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) construída como condicionante para o funcionamento da usina.
A estrutura funcionou por poucos anos e está desativada desde 2008. Atualmente, o esgoto da cidade é despejado sem tratamento no Córrego Lava Pés e na represa.
Durante a audiência, representantes do município informaram que uma reunião mediada pelo Ministério Público de Minas Gerais deverá discutir a assinatura de um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) para viabilizar a reconstrução do sistema de tratamento.
Cobrança por reparação
Para o deputado Doutor Jean Freire, a audiência pública foi um momento importante para ouvir a população e reforçar a necessidade de responsabilização pelos danos causados ao município.
Segundo o parlamentar, obras desse porte não podem ignorar os impactos gerados na vida das comunidades que vivem no território.
A Comissão de Participação Popular seguirá acompanhando o caso e cobrando soluções que garantam reparação aos atingidos e melhores condições de vida para os moradores da região.
Assessoria de Comunicação, com informações da ALMG.


