Dados científicos apontam aumento de eventos extremos, enquanto o orçamento estadual para prevenção de desastres encolhe sob o governo Zema.
Minas Gerais volta a enfrentar cenas que já não podem ser tratadas como exceção: chuvas intensas, cidades alagadas, encostas cedendo, famílias desalojadas e vidas interrompidas. A cada verão, repete-se a constatação de que, em poucas horas, chove o equivalente ao esperado para um mês inteiro — como se ainda estivéssemos diante de um fenômeno imprevisível. Não estamos.
Os dados técnicos disponíveis nos últimos anos já apontavam a intensificação dos eventos extremos. O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) monitora atualmente 1.133 municípios brasileiros com histórico de ocorrências.
Em 2023, eventos extremos afetaram diretamente 336.656 pessoas no país. Entre 2020 e 2023, aproximadamente 8,7 milhões de brasileiros ficaram desalojados ou desabrigados em decorrência de enchentes. No mesmo período, foram registrados 7.539 desastres climáticos — um aumento de 222,8% em comparação com a década de 1990 — e a proporção de municípios atingidos saltou de 27% para 83%.
Além da maior frequência, observa-se também maior intensidade e concentração das chuvas em curtos intervalos de tempo, fenômeno que amplia o potencial de dano em áreas urbanas vulneráveis.
Vulnerabilidade não é fatalidade
O que transforma chuva intensa em tragédia é a combinação entre fenômeno natural e vulnerabilidade social: ocupação de encostas e margens de rios, ausência de políticas habitacionais, falta de planos de contingência e estrutura precária de defesa civil.
Em Minas Gerais, mais de 582 mil pessoas vivem em áreas de risco geológico já mapeadas pelo Serviço Geológico do Brasil. O diagnóstico existe. O risco é conhecido.
O que não se verifica é a priorização política compatível com esse cenário.
O orçamento também comunica prioridades
Dados do Portal da Transparência do Estado de Minas Gerais e das Leis Orçamentárias Anuais (LOA) mostram que, durante o governo Romeu Zema, os recursos destinados à gestão de riscos e resposta a desastres sofreram redução expressiva. Em 2023, as dotações voltadas à prevenção e enfrentamento de eventos extremos somavam cerca de R$ 134,8 milhões. Na LOA de 2025, a ação “Gestão do risco de desastres” aparece com aproximadamente R$ 6 milhões, além de valores residuais para suporte emergencial.
A redução é da ordem de 96%.
Em um contexto de aumento documentado de eventos extremos, diminuir o orçamento de prevenção não é um movimento técnico neutro. É uma decisão política tomada no âmbito do governo Zema.
O desafio é estrutural
No plano global, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) afirma que ainda é possível limitar o aquecimento aos patamares menos catastróficos, mas isso exige cortes rápidos e profundos nas emissões de gases de efeito estufa — cerca de 43% até 2030 — e neutralidade de carbono até meados do século. Paralelamente, demanda políticas robustas de adaptação.
Mitigação e adaptação não são agendas concorrentes. Reduzir emissões é indispensável para conter o agravamento da crise. Adaptar cidades é fundamental para enfrentar impactos que já estão em curso.
Isso significa investir em contenção de encostas, drenagem urbana, desassoreamento de rios, reflorestamento, revisão de planos diretores, políticas habitacionais que evitem ocupações em áreas de risco e estruturação adequada das defesas civis, com planos de contingência previamente treinados.
A emergência climática já reorganiza o presente. Ela redefine o planejamento urbano, a política habitacional, a gestão fiscal e a própria noção de prioridade do Estado.
Governar, hoje, exige reconhecer que o clima deixou de ser variável externa e passou a ser elemento estruturante da política pública. Reduzir o orçamento de prevenção em meio ao aumento comprovado de eventos extremos não é apenas um erro técnico, é uma escolha que amplia vulnerabilidades.
Minas Gerais não precisa apenas reagir às tragédias. Precisa decidir, de forma explícita, se continuará tratando prevenção como gasto secundário ou se assumirá a adaptação climática como política de Estado, com planejamento, orçamento e prioridade compatíveis com a realidade que já se impõe.
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