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Qual vida vale mais? 

O assassinato de Laudemir e a fala de Zema sobre pessoas em situação de rua revelam a lógica perversa que desvaloriza o povo pobre e trabalhador no Brasil.

Foto: Reprodução

O Brasil escancara todos os dias que nem todas as vidas têm o mesmo valor para a elite econômica que se julga superior. Dois episódios recentes ajudam a compreender essa lógica perversa: o assassinato do gari Laudemir de Souza Fernandes, de 44 anos, pelo empresário – e assassino confesso – René da Silva Nogueira Júnior e a fala do governador Romeu Zema comparando pessoas em situação de rua a carros estacionados irregularmente que precisam ser “guinchados”.

Laudemir foi morto porque, para o empresário que o assassinou, a sua pressa era mais importante que a vida de um trabalhador da limpeza urbana. Ele foi morto porque, para gente como Renê, a vida de um gari é considerada “descartável”, faz menos falta, vale menos. Mas não vale. Laudemir tinha história, família, importância. Tinha o mesmo direito de existir e viver com dignidade que qualquer outra pessoa.

Do mesmo modo, quando Zema compara pessoas em situação de rua a carros que estão em local proibido e que deveriam ser guinchados, ele revela o que pensa sobre essas vidas: que elas são tão incômodas que precisam ser retiradas da paisagem urbana. Mas retiradas para onde, governador? Para debaixo de qual viaduto? Para qual invisibilidade?

Zema sabe que a responsabilidade também é sua. Cabe ao poder público — consequentemente a ele, como governador de um dos maiores estados do país — propor políticas de moradia, assistência e dignidade. Mas em vez disso, Zema escolhe incitar o ódio e reforçar estigmas. Não à toa, sob sua gestão, Minas Gerais viu o número de pessoas em situação de rua crescer 122%, segundo uma análise de dados do Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal (CadÚnico).

Essas declarações e práticas não são acidentes. Elas se conectam a um projeto de Estado que confere menos valor à vida dos pobres, dos trabalhadores, dos marginalizados. É o projeto de um governador que veta R$ 1 bilhão do Fundo de Erradicação da Miséria, recurso que seria destinado à assistência social, mas que, ao mesmo tempo, concede benefícios fiscais às locadoras. Só entre 2023 e o fim deste ano, Minas deve deixar de arrecadar R$ 4,7 bilhões por causa das isenções concedidas por Zema aos seus amigos – e financiadores de campanha – milionários.

É o mesmo projeto que tenta privatizar a saúde e outros serviços básicos, como a água e a energia; que sucateia a Fhemig; que não investe na rede pública; e que desrespeita servidores com um reajuste de apenas 4,62%, enquanto o próprio governador aumentou seu salário em mais de 300%.

A mensagem deles é clara: alguns devem ter tudo, enquanto outros têm que se contentar com nada. Uns são tratados como prioridade, outros como peso.

Mas a vida de Laudemir importa. A vida de cada pessoa em situação de rua importa. A vida de quem limpa a cidade, de quem cuida, planta, ensina e serve importa. E o nosso papel é lembrar, todos os dias, que nenhuma vida é descartável. Que os privilegiados não têm o direito de determinar quem merece viver com dignidade e quem pode ser empurrado para a margem.

É por isso que seguimos lutando: para que cada vida, sobretudo as que eles tentam invisibilizar, tenham o mesmo valor e o mesmo direito a um futuro de dignidade. 

Jean Freire é médico e deputado estadual pelo Partido dos Trabalhadores (PT)

Confira o artigo no Brasil de Fato

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